12/07/10

Inês Pais, que pele é esta?


(Entrevista)
por Paula Januário

Um ano depois de “Religio”, na Sala do Veado, Lisboa, Inês Pais apresenta a evolução da sua pesquisa numa nova individual. “Nude” acabou de inaugurar na Galeria VPF Cream Art e aprofunda a investigação sobre a pele que “Religio” iniciou. Esta entrevista é sobre essa mostra.

Para este encontro escolhemos um site que partilhasse as preocupações implicadas na nossa conversa: o edifício da Caixa Fórum, (Herzog & De Meuron, 2008), em Madrid. Desde a base ao top floor onde nos encontrámos, algumas soluções são transversais a uma dicotomia central na cultura do início deste século: num extremo a representação digital da existência orgânica, e essa, real, no outro. Na Caixa Fórum, no revestimento exterior em aço Corten, à própria ideia duma oxidação superficial por exposição às condições ambientais que simultaneamente protege a integridade do interior do aço foi acrescentada uma segunda nota. Os autores recortaram-no em padrão de pixéis ampliados. Dentro desse filtro pixelado que se antepõe à luz exterior - na cafetaria - era claro que as questões do nosso encontro e do espaço onde estávamos eram leituras idênticas do mesmo tempo histórico actual.
Em “Nude” estão em mostra duas séries “Pixels” e “The Nude Clown”. “Pixels” é a transposição para tecido dum pixel de um ficheiro da imagem do rosto da artista. Recupera para instalação uma prática da indústria da cosmética de usar tecidos para comunicar determinadas características de um produto. “The Nude Clown” é uma série de fotografias de um personagem cuja aparência remete para a imagem do palhaço. Se “Religio” era uma catedral, “Nude” pode ser um laboratório.

Paula Januário: Aproximando esta exposição pelo seu título: a estética Nude congrega referências oriundas de contextos de moda e life style. Em “Interiors” (1978), Woody Allen cria “Eve” uma personagem extremamente rica intelectualmente, contudo também emocionalmente disfuncional. A construção do seu carácter, central no filme, passa pela sua profissão: é designer de interiores e a sua marca é a elegância e austeridade do look Nude. Gostava que começasses por falar do Nude na confluência destes dois elementos: o prolongamento táctil, no cromatismo de variantes da pele e a austeridade programada, nada orgânica ou espontânea, no desenho.
Inês Pais: É-me difícil aprofundar o conceito de Nude, por isso vou falar simplesmente da minha percepção. Surgiram um conjunto de looks, roupas, maquilhagens, feitos só com tons de pele, criados por vários designers de moda e maquilhadores. Estes looks tornaram-se recorrentes ao longo dos últimos anos e foram reconhecidos enquanto tendência, apelidada pela imprensa especializada de Nude. Este conceito prende-se com a ideia de não adornar muito a pele, mas também de não a expor em demasia... de conseguir estabelecer um equilíbrio complexo entre o que se mostra e o que se cobre, entre o que se corrige e o que se evidencia, tendo em vista a criação de uma imagem muito urbana, muito actual, simples mas sofisticada, discreta mas polida e elegante. Estamos a falar de um trabalho muito minucioso, muito atento, muito elaborado, para conseguir tal resultado. Nude fala-nos da relação Homem/corpo, no Presente. Uma relação fria e algo desligada, um pouco à semelhança de Eve.

PJ: Em trabalhos anteriores tematizaste a pele no reportório da sua participação na produção artística universal, se quisermos implicar toda a extensão de possibilidades. O Nude é uma referência dos anos oitenta e noventa.  Em que medida a sua escolha corresponde ao interesse por uma proposta temporalmente próxima – de alguma forma momento de chegada – da cultura ocidental à utilização da pele?
IP: Não estou certa de que o Nude é uma referência dos anos oitenta e noventa... A escolha deste título prende-se com a sua actualidade, no sentido em que Nude é um termo muito batido nas revistas de moda e lifestyle dos últimos anos e nesse sentido espelha, como já referi, um determinado tipo de relação Homem-corpo, ou Homem-pele, comum na sociedade ocidental actual.

PJ: A tua pele não é o material nas propriedades enérgicas de Joseph Beuys, não é a presença enigmática da matéria orgânica em Étant donnés de Duchamp, não é o statement sobre o novo mundo da Bioarte. Que pele é?
IP: A pele, no meu trabalho, é sempre um limite físico e simbólico do Eu, algo que cela o indivíduo, que faz com que não transborde. Representa a relação entre o nosso interior e o nosso exterior.

PJ: Nesta exposição mostras “Pixels” uma série de trabalhos que correspondem à transposição para tecido da ampliação dum pixel fotográfico. Fala-me de que forma a fotografia organiza a tua relação com a exploração da pele.
IP: Antes de mais é importante referir que quase todas as imagens que apresento são manipuladas, pelo que são consideradas imagens e não fotografias. Na sua origem a fotografia encontra-se ligada à memória, é uma espécie de extensão da memória e nalguns casos é mesmo um substituto da memória, ou seja, é memória, por outro lado, a fotografia é uma extensão do olhar, algo que orienta, que estrutura, que enquadra. Normalmente parto para um trabalho com uma câmara fotográfica, com o meu rosto e com uma preocupação, ou um tema. Mesmo em “Pixels”, a câmara fotográfica foi usada como microscópio, como uma lupa apontada ao meu rosto, é um retrato, uma réplica em tecido da minha pele.

PJ: Na última individual, “Religio”, a disposição de dezenas de imagens fotográficas do teu rosto pigmentado no ambiente recolhido da Sala do Veado sugeria um registo de sacralidade. A série “Nude Clown” é uma evolução hilariante dessa sacralidade?
IP: Eu diria que o "Nude Clown" é um personagem oposto em muitos sentidos aos de “Religio”. Em “Religio” (religio deriva de religar), estavamos perante um conjunto de personagens que usavam a pintura da pele para se re-ligarem uns aos outros, ao mundo, à terra, às suas origens, à tradição. Já o palhaço é um personagem que existe apenas com o intuito de agradar ao Outro. Num limite, ele não tem interior, é oco, não tem desejo, não tem sentimentos, não tem pensamento, limita-se a perpetuar a sua submissão, não conseguindo comunicar no verdadeiro sentido da palavra, já que não existe para si próprio. O “Nude Clown” é um palhaço que se desmaquilhou, ou seja, que retirou a pintura da sua pele e que nesse acto se des-ligou do Outro. Mas, ao fazer esse corte, conseguiu aperceber-se de que não tem rosto, dando inicio a uma nova fase, onde pode estabelecer uma nova ligação, conquistar um interior, ganhar uma autonomia, ter vontade própria. Sim, a sacralidade permanece.

PJ: A figura do Clown reverte, na história da arte, para abstracção de elementos ligados a relações de poder. Anteriormente, em IP Foundation reflectiste sobre as possibilidades interventivas individuais num universo de consumo. Cruzam-se?

IP: Tenho que responder? Posso escolher consequência!

PJ: Partindo dos extremos em que a exposição se organiza – “Pixels” enquanto elemento último ligado ao poro da epiderme, e o Clown, cujo significado emana de relações entre pessoas - pensas as questões da pele, incluindo as médicas e cosméticas como reduto das relações do homem com a sua inserção sócio-política?
IP: A pele representa a nossa capacidade de integração, ou melhor, canaliza e materializa o nosso esforço de adaptação à realidade. Diria que não apenas à realidade socio-politica, mas a todas as realidades, interiores, exteriores, passadas, futuras, presentes... diria ainda que este esforço é crescente de geração em geração, o que nos leva a questões tão profundas e tão eternas como a do sentido da vida.

PJ: Acerca de “Religio” disseste que a utilização do teu próprio rosto nas imagens fotográficas te permitia concentrares-te no essencial. A identidade de que tens utilizado é sempre abstraída?
IP: Quando trabalho sobre o meu rosto, não tenho uma intenção consciente de representar-me ou de retratar aspectos da minha pessoa ou da minha biografia, mas acredito que existe sempre uma ligação entre o que eu faço, o que sou, o que penso, o que vivo e o que sinto.

PJ: Nessa identidade a pele concentra o que é transversal a todos nós? Nós políticos, sociais, antropológicos? Quem de nós?
IP: Nós, seres humanos. 

PJ: Preocupa-te a dissolução do Homem livre em exigências de estilo de vida institucionalizadas?
IP: Sim, preocupa-me. Cada vez há mais estilos de vida, mais alternativas ao estilo de vida institucionalizado, o que significa que esse modelo está ultrapassado. As pessoas têm acesso à informação, viajam, comunicam muito, são pró-activas, são capazes de fazer escolhas informadas e responsáveis. Estamos em 2010, a diversidade é parte essencial do presente e do futuro e deve ser aceite enquanto tal, para o bem da evolução da nossa sociedade, para o bem do país, para o nosso bem. Temos que contribuir para criar um mundo mais actual, mais dinâmico, mais sensível e reactivo às necessidades dos seres que o habitam.

PJ: O regresso à pele é um caminho de volta ao indivíduo no retorno dos processos emocionais massificados? 
IP: Eu costumo dizer a brincar que vivemos na "sociedade epidural". O regresso à pele implica assumir de volta toda a sensibilidade, o sentir, e tudo o que isso implica de dor e de sofrimento. É pouco prático e pouco valorizado nos dias que correm, mas o preço de não-sentir é não crescer. Não crescer é respirar sempre o mesmo ar e não ver o mundo por detrás dos muros altos do ego. É muito importante ter essa coragem.
 
PJ: É curioso usares simultaneamente referências universais desenvolvidas espontaneamente no seio de comunidades - como o uso do corpo como suporte - e propostas desenhadas normativamente por fashion desiners...
IP: Um bom designer de moda é um ser profundamente inspirador, diria mesmo visionário porque consegue ver mais longe do que os outros seres. É aquele que entende claramente o espírito do presente e que nos mostra claramente a essência da actualidade. Ele não impõe isto ou aquilo, ele antecipa e dá-nos a conhecer...é um Karl Lagarfeld, um Christopher Bailey. Já a pintura de pele tradicional, feita no seio de micro-comunidades, representa exactamente o oposto, representa o que é comum a um lugar e a todas as gerações que o habitaram, o que é continuum, o que é tradição. 

PJ: Em “IP Foundation” (1999) já oferecias uma reflexão sobre o sistema das artes em articulação com a vida alargada. As tuas preocupações são também ligadas com o modelo social em que funcionamos?
IP: As minhas preocupações de ordem social podem assumir expressão através do meu trabalho artístico, mas esse processo de as comunicar não é completamente consciente, nem quero que seja.

PJ: Mesmo assim tua reflexão deslocou-se agora mais para o homem individual? 
IP: Talvez...

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